Mútua observação

Ontem teve apresentação do Coral, e estava a coisa mais hilária do mundo: a Mirka na plateia e eu no palco, e as duas se observando. Obra: "Paixão Segundo São Mateus", de Johann Sebastian Bach, versão resumida por Lukas D'Oro. Imaginem passar uma hora e vinte minutos parada no palco, especialmente durante as árias dos solistas. Se tivesse que ser a obra inteira, eu estaria simplesmente ferrada, fatalmente derrubaria a partitura no chão, descalçaria os sapatos... Como foi "só" uma hora e vinte, mexi nos cabelos, cocei o nariz, cocei o rosto, torcia o pezinho, coçava o braço, virava as páginas da partitura para uma ária que não era a executada, procurava a Mirka, dava instrução de filmagem para o Caco, que também estava na plateia, perguntava para a Bárbara, a contralto que estava ao meu lado, se íamos cantar o "O Mensch"... Eu estava insuportavelmente quieta.

Enquanto isso, a Mirka não parava quieta na cadeira. Olhava para trás, conversava com um, mexia no cabelo, conversava de novo, me pareceu estalar os dedos, mudou de plateia, foi lá para a parte superior da igreja, logo em seguida desceu de novo. Não parava de se mexer enquanto estava sentada, nenhuma posição estava boa.

Ao final da apresentação, ela se vira para mim e diz:

- Não sei como é que você aguentou ficar aí parada!!!

E eu:

- Eu não aguentei! Eu estava irrequieta! O caso é que você não viu porque também estava se mexendo o tempo todo!

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Hereditário? Imagina!

Minha avó é tão linda! Uma gracinha, tem 82 anos e é muito ativa. É, confesso, hiperativa. Quer se esconder dela? Vá para a casa dela. É o último lugar em que você a encontrará. Mais fácil achá-la na "ponte rodoviária" entre Belo Horizonte - Uberlândia - Piracicaba - São Paulo - Barbacena. E quem diz que ela fica na casa de quem ela se propôs? A "véia" levanta sete e meia da manhã e vai bater perna, arruma uma missa para ir, uma feira para visitar, um shopping para passear. Quando eu era menor ainda do que sou hoje e as minhas pernas mais curtas, eu não conseguia acompanhá-la. Meus pezinhos doíam, coitados, de tanto que ela andava e fazia a gente andar junto. Hoje em dia estamos no mesmo passo, e as perninhas continuam curtas e ágeis. Agora pensa nessa velha num pós-cirúrgico? Outro dia ela precisou fazer uma pequena intervenção e o médico mandou que ela ficasse de molho uns vinte dias. O molho durou cinco.

Meu pai, filho dela, é outro que também não sossega. Foi com ele que aprendi a ter paixão por carros, e é daí que gosto tanto de acordar cedo no domingo só para cuidar do possante, lavar, passar cera etc. Pois é, está sempre inventando alguma coisa que facilite a nossa vida e procurando o que consertar na casa, e consegue da forma mais barata e simples. É o cara que literalmente exerce a filosofia "soluções práticas para um mundo moderno". Gosta demais de dirigir - com ele eu aprendi a pilotar um carro - e não para em lugar nenhum. Já viveu em vários Estados e voltou para Minas Gerais porque amazonense tem um ritmo que ele não aguenta, mas que também não chega a ser como baiano. No Amazonas ele quase ficou louco, se meu pai tivesse que viver na Bahia, ele certamente enlouqueceria e jogaria uma bomba lá. A única coisa que "para" o velho hoje em dia é a gota que, quando ataca, deixa ele cheio de dores e com as articulações todas inchadas. Mesmo assim, quando ele pensa ter melhorado, ele volta lá para baixo dos carros e vai consertar mangueira, radiador, desempena isso, parafusa aquilo, aperta dali, regula d'acolá... E depois volta para a cama morrendo de dor. Mas não aprende.

Eu, enquanto isso, não sou uma consultora feliz se não tiver ao menos seis ou sete janelas abertas no meu computador. Geralmente fazendo três ou quatro orçamentos, montando dois contratos, escrevendo e-mail e isso tudo ao mesmo tempo em que falo ao telefone e dando satisfação de uma quinta coisa à chefe, que está ao lado. Tive que emprestar o "Mentes inquietas" para ela ler e entender que o normal meu é isso. Não que eu tente justificar meu comportamento diante dela, é que ela não consegue conceber como é que eu consigo fazer trezentas coisas de uma vez e as outras pessoas uma de cada vez. Saldo final: não termino nenhum dos contratos, nenhum dos orçamentos, me enrolo no e-mail e me perco na conversa ao telefone. Isso me frustra profundamente. Aí eu me levanto, dou um passeio pela sala, vou à copa, tomo um café, estalo os dedos e as costas, arranco uns fios de cabelo - tricotilomania, eu tenho - e volto ao posto. Fecho pelo menos cinco janelas e me proponho a terminar uma coisa de cada vez. Aí sai.

Uma colega de trabalho costuma fazer uma comparação muito boa: existe um objeto voador na sala. Todos já perceberam que se trata de algo que voa. A Glaucia, sem olhar, já sabe que é uma borboleta de quatro cores e já está lá no Google procurando à qual família a bendita lepidóptera pertence. Um cérebro hiperativo é assim, processando milhares de coisas ao mesmo tempo e já pensando no que fazer para sobrar mais tempo para outras atividades.

Hoje tive aula de Navegação. Entender o computador de bordo é um pouco complicado, e eu estou prometendo para mim mesma que "amanhã eu estudo". Só que eu não consigo ficar mais do que quinze minutos com a poupança pregada numa cadeira para poder estudar. E eu apanhando do computador de bordo. Amanhã eu estudo. E o amanhã nunca chega, porque eu não consigo estudar. Daí já estou lá processando algo que dê certo. Semana passada, levei as apostilas para a cabeceira do aeroporto e, enquanto os aviões pousavam e decolavam, eu repetia as coisas em voz alta, simulava alguma frase característica da fonia dependendo da posição da aeronave, e assim fui criando nova estratégia para estudar. Essa deu certo. Vamos ver até quando dura.

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Campanha: Use sua liberdade de expressão com responsabilidade. Miopia sim, cegueira não!

Apesar das pesquisas comprovarem que 5% das crianças têm diagnóstico de TDAHI, ainda existem pessoas que duvidam que ele exista e fazem campanha nos meios de comunicação em massa contra seu tratamento, deixando pais que já estão vulneráveis, ainda mais confusos e prolongando o sofrimento de milhares de crianças e adolescentes mundo a fora.

Essas pesquisas científicas foram realizadas por conceituadas universidades em todo o mundo e é bom lembrar que o mundo é bem maior que o quintal da nossa casa. Será que todos os pequisadores ( de diversos países )  se equivocaram ao mesmo tempo ao terem um resultado único a respeito do TDAHI? Será que a indústria farmacêutica conseguiu comprar todos esses cientistas e pesquisadores?

A Ciência não é democrática e não está interessada na opinião pessoal ou achismos desse ou aquele, pois esses processos são pesquisados, validados e publicados. O que me admira é que hoje existem mais artigos publicados validando o  TDAHI do que a esquizofrenia, porém que eu saiba, ninguém duvida da sua existência. 

Quando vejo comentários irresponsáveis circulando pela internet, fico apavorada. Esses comentários são cruéis com os portadores de TDAHI e seus familiares, pois prolongam seu sofrimento e adiam sua solução.

Eu sou mãe de um TDA, sou portadora de TDAHI e digo que foi muito difícil encontrar um caminho e esse caminho não é de rosas, é de pedra, os pés ficam calejados durante a árdua trajetória.

Meu filho já foi rotulado e enfrentou uma série de preconceitos. Depois de diagnosticado e tratado eu pude oferecer condições de crescimento que ele merece e que eu não tive em minha infância, não por culpa da minha mãe, mas por ser um transtorno até então desconhecido. 

Minha mãe também foi vítima de um TDAHI não diagnosticado e, em 1956, por ter dificuldades em aprender e manter sua atenção foi estudar no antigo Instituto Pestalozzi, rotulada como incapaz e retardada. Mulher inteligente que é, criou três filhos e demonstrou que nunca teve problemas cognitivos.

O diagnóstico não aprisiona quem de fato é portador do TDAHI, ele liberta. Ao invés de deixar a pessoa presa a rótulos -"Vagabundo", "burro", "negligente" e outros adietivos - coloca um ponto final nessa enxurrada da preconceitos e possibilita a inclusão dessas crianças que têm o direito de serem entendidas e respeitadas.

Como mãe, não quero crianças medicadas indiscriminadamente e sei que existem por aí avaliações e diagnósticos duvidosos e profissionais pouco éticos, por isso procuro me informar e me cercar de profissionais confiáveis e especializados na área.

Diagnóstico errado acontece em qualquer área da saúde, o grande problema é querer generalizar e achar que os pais preferem dar Ritalina aos filhos do que educá-los ou amá-los. Essa afirmação enfurece qualquer mãe/pai de TDA, só quem tem um por perto para conhecer a realidade do dia a dia.

Dizer por aí, sem nenhum conhecimento científico e embasado em achismo que é contra dar a medicação pra essas crianças é de uma irresponsabilidade sem limites, por isso que quando li no Twitter hoje "@fulano REPASSEM ESTA INFORMAÇÃO - EU SOU CONTRA RECEITAR RITALINA PARA CRIANÇAS !!"  eu tive que retrucar para o fulano  "@fulano REPASSEM ESTA INFORMAÇÃO - EU SOU CONTRA RECEITAR ÓCULOS PARA CRIANÇAS MÍOPES !!".

Imaginem que beleza, eu quando criança não recebi o tratamento pra TDAH e, se a minha mãe também não deixasse usar óculos por causa da minha miopia?  Reflitam sobre isso, pronto, desabafei. Ufa.


Visitem meu site: TDAHI - Grupo de Apoio

Troféu joinha para mim quatro vezes

Ontem, eu havia chegado às três da manhã em casa, e vi que meu celular estava só com um pininho de bateria. Pus para carregar e fui dormir.

Levantei às sete, vesti uma blusa, e às dez estava com a Mirka no msn, discutindo a ritalina com "babagem". Já estava ali na porta de casa, preparando-me para ir à padaria, quando percebi que a blusa que vestia estava do avesso.

Um amigo me chamou depois no msn e disse que havia me mandado uma mensagem no celular. Foi a Glaucia aqui conferir, e cadê que o celular tinha bateria? Eu apenas havia conectado o pino no telefone, e esqueci de ligar o carregador na tomada.

Mais tarde, quando fui deixar esse amigo e sua filha em casa, estou descendo a Jacuí e simplesmente esqueci do sinal vermelho na esquina da Pouso Alegre. Fui no embalo de um táxi que estava na minha frente com o pisca-alerta ligado, retirando o veículo da pista. Só não tomei uma chapoletada porque o trânsito estava tranquilo e estava chovendo muito, ninguém iria ser louco de correr naquele temporal.

Para completar a sucessão de distrações, hoje saí contente, feliz e sorridente do trabalho e fui para o aeroclube. Finalmente consegui assistir à aula de Meteorologia. E a apostila e o caderno ficaram lá no centro de convenções. Amanhã eu pego.

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Que bobagem é essa?


Ah TDAHI ..... tem gente que acha que é legal ter, afinal, está na "moda". Mas quem tem, sabe que é complicado, mais ou menos como matar um leão por dia. Eu não acho nem um pouco legal ter passado o TDAHI pro meu filho Rafael (essa droga é genética) , e nem acho legal sempre chegar atrasada nos meus compromissos - já ganhei um relógio sem ponteiro de inimigo oculto o_O -, não acho legal acumular tarefas por não saber  me organizar melhor, não acho legal  fazer mil coisas ao mesmo tempo e depois ter que voltar pra refazer alguma tarefa que achei que ficou realizada de qualquer maneira - sim, sou TDA, mas sou perfeccionista -, não acho legal ter hiperfoco, quando ele acaba o "príncipe vira sapo",e o que era interessante fica chato, não acho legal esquecer o meu aniversário de casamento ou ser totalmente desligada das datas presentalóides (dia dos namorados, dia das mães, dos pais e blá blá). Mas .... dá pra levar a vida no bom humor. Então resolvi criar esse blog, pra falar das bobagens que nós, TDA´s acabamos fazendo no dia a dia. Sou mineiríssima, casada, mãe de 4 filhos (uma anjinha que tá no céu e três garotos lindos que estão comigo), sou administradora e sócia de uma empresa produtora de softwares para área da saúde. Convidei outra maluca, digo, TDA, pra postar aqui comigo, conheça um pouco sobre ela agora:

Glaucia Piazzi, 30 anos, amazonense e um currículo digamos... pouco convencional. Começou a cantar com 13 anos. A estas alturas já tinha um bom conhecimento de inglês. Aos 16, entrou no Cefet-MG para cursar Tecnologia Ambiental, mas se estressou do curso antes de um ano, e trocou para Química. Faltando dois meses para concluir este, estressou-se também e prestou vestibular para Fonoaudiologia na UFMG. Isso porque o curso juntava tudo de que ela gostava: o canto, a voz, a física, a odontologia, o cuidado. No segundo período do curso, estressou-se de novo e chegou a fazer vestibular simultaneamente para Medicina, Engenharia Elétrica e Nutrição. Chegou a passar em Medicina, mas, como era em outra cidade, e se propôs a terminar o curso de Fonoaudiologia, em Belo Horizonte ficou. Nesse ínterim, aprendeu italiano e começou a frequentar aulas de alemão. Durante o curso de Fonoaudiologia, juntou matérias suficientes para três períodos do curso de Letras. Mas não continuou, pois foi trabalhar como gerente de um restaurante, e logo após montou uma clínica fonoaudiológica. Clínica que, aliás, funciona até hoje, por intermédio de sua sócia, que felizmente não é TDAH e cuida direitinho do negócio. Já a Glaucia, enquanto isso, foi fazer Pilotagem Profissional de Aeronaves na UNA-MG e trabalha como consultora de vendas num centro de convenções. Uma beleza."Hoje em dia mantém o blog 'A vida é um mingau', e participa dos blogs 'Entre Elas, um Amado!', 'Insone Apaixonante' e este querido 'Ritalina com bobagem'. O mais impressionante é que ela dorme oito horas por noite."
E pra vocês não acharem que é bobagem, até na hora de criar o blog, a gente erra o nome, se gostou do formato do nosso blog, "siga-nos os bons"!


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Nossa bobagem de cada dia:

A minha bobagem é sem ritalina mesmo, porque sóbria é mais gostoso de se fazer as coisas. Por isso resolvi começar o meu dia com uma oração.

“Pai nosso que está nos céu, meu pai não é piloto, ele é mecânico. Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino. Complicado isso, fica parecendo aquelas conquistas medievais, um rei invadindo o reino do outro, castelo, dragão, princesa... Onde eu estava mesmo? Ah, sim, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. É, piloto quando está em terra, fala de avião, quando está em vôo fala de mulher. Bobagem danada, gente. Eu queria a uma hora dessa estar em comando para ver na prática mesmo o nível de cruzeiro. Por isso que atleticano nunca é piloto, para não ter que se manter em nível de Cruzeiro. A propósito, o jogo do América foi ótimo, pena que o juiz tenha roubado tanto. Tadinho do Mequinha, tão injustiçado! Nossa, viajei. O pão nosso de cada dia nos dai hoje... Putz! Lembrei que tenho que pagar o seu Manoel da padaria! Ah, não faz mal, amanhã eu vou lá e aproveito para fazer a unha com a dona Judite. Só que os esmaltes dela estão ruins, vou sugerir comprar uns novos, tem umas cores bonitas que saíram estes dias, última moda. Ah... ahmmm... é... ta. Amém.”

Texto por Glaucia Piazzi

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