Faxina na alma

Vou ter que começar este post no mesmo esquema do post anterior. ^^

Sequência sem ritalina

- Acordo cedo no sábado de manhã;
- Quero estudar flauta e preciso procurá-la porque não me lembro onde pus;
- Abro a parte de baixo do armário e (re)descubro uma zona;
- Me disponho a arrumar tudo até achar a flauta;
- Encontro um livro interessante e começo a ler;
- Venho para a sala e ligo o computador;
- Começo a arrumar algo para comer;
- O quarto aquela zona e eu no computador;
- Encontro outro livro interessante;
- O dia acaba e eu comi mal, não arrumei o quarto e não consegui fazer nada do que eu tinha planejado no computador.

Sequência com ritalina

- Acordo cedo no sábado de manhã;
- Quero estudar flauta e preciso procurá-la porque não me lembro onde pus;
- Abro a parte de baixo do armário e (re)descubro uma zona;
- Me disponho a arrumar tudo até achar a flauta...

A partir daí o que aconteceu foi mágico. Tou com uma p*ta dor nas costas por ter ficado sentada no chão sem apoio por horas. E o que eu fiz não foi só uma faxina geral nos meus papéis. Foi na alma. Há muito tempo eu tinha falado que iria promover essa faxina, sabe? Precisamente no início de 2009. Disse para mim mesma que iria eliminar qualquer coisa ou pessoa que me puxasse para baixo, e acho que agora eu consegui concluir a tarefa. Despejei toda a papelada no quarto inteiro e nesse momento só fui separando as coisas por "presta" e "não presta". Tirei de lá dois sacos de 100 litros de coisas desnecessárias que fui entulhando durante quinze anos.

Fotografias... Tinha gente que eu nem lembrava quem era. Joguei fora. Tinha gente que eu sabia muito bem quem era. Justamente por isso joguei fora também, haha. Pior que encontrar fotografia de um ex, pedaço de papel que você jurava que tinha jogado fora, é encontrar uma declaração de "amor" de outro, o sujeito mais ciumento da face da terra. Mas este capítulo eu vou deixar para contar em outro post, é bem interessante. Enfim, eu ri muito foi da  minha própria reação, ainda na época. Como está escrita na capa de um caderno meu da Aviação, não podia jogar o caderno fora, tampouco arrancar-lhe a capa. Dei um risco com canetão preto e escrevi: "Ex bom é ex morto!" 

Também encontrei fotos da minha ida ao Xuxa Park em 1996, minhas férias em Grão Mogol (MG) em 2002, meu encontro com o Guilherme Arantes em 1999, minha formatura em 2004. Caramba, foi tão legal encontrar isso! Uma visita ao meu passado de coisas boas, até me emocionei! 

Contra-cheques, extratos, contratos... estava ali todo o meu histórico financeiro. Espalhado, mas estava. Finalmente consegui descobrir quanto eu ganho - acreditem, eu não sabia porque nunca consegui processar a lógica do contra-cheque, embora ele seja bem simples de entender - e agora posso fazer um controle. Os extratos bancários e comprovantes guardados por cinco anos, como manda o figurino. Um monte de fatura de cartão de crédito que eu não sabia onde tinha metido. Toda enrolada em dívidas, precisando pagá-las e sem saber por onde começar, gastava sem ver. Aliás, a dívida é um negócio bem TDAH: quando você contrai uma e parcela em 12 vezes, na terceira prestação você já perdeu a paciência, o controle e o boleto para pagá-la. E tome-lhe juros. Aí a faxina de alma: achei tudo o que era necessário e montei uma planilha no Excel que calcula tudo com os juros que hei de pagar no próximo mês. Agora eu consigo me planejar!!!!

Mas o que mais me emocionou foi rever minhas lembranças da Fonoaudiologia e da caligrafia. Convites antigos, formaturas e casamentos de amigos, primos, irmãos. Não pretendo voltar a clinicar, mas foi tão gostoso recordar a época da faculdade, com saudade e às vezes com vontade de dar na minha cara porque não conseguia honrar um ou outro compromisso (perdoem-me, meninas. A culpa não era minha meeeesmo!).

As tintas, os pincéis, as penas... As cores sempre regeram meu mundo. Eu sou bem sensível à arte, adoro uma exposição, um museu, um concerto. Fui a Cataguases (MG) em agosto de 2008 dar um curso de agendas artesanais - ser TDAH tem uma parte boa, que é aprender e dominar rapidamente técnicas de que até Deus duvida - e estavam lá os esqueletos das agendas, o resto do material, as cópias das apostilas, o certificado, os cartões lindos que minha amiga Elisa, promotora do curso, me deu.

Tenho uma coleção de passagens e etiquetas de bagagem, a única coisa na vida que consegui colecionar. Guardo todas dos lugares aonde vou. São aéreas e rodoviárias. Vivo em trânsito, alma inquieta que sou. Tem de São Paulo a Manaus, de Bauru a Guarapari, de Santiago do Chile a Cusco, de Formiga a Curitiba. Encontrar a outra parte da coleção, que também estava espalhada, me fez criar uma caixa só de coisa boa: não só as passagens e as etiquetas foram para ela, mas também os fôlderes, os mapas, os ingressos de shows a que fui. Nossa, quanta coisa boa eu revivi!

E a faxina que eu achei a mais importante: a dos cartões de visita e contatos. Tinha cartão de tudo quanto era tipo de serviço, dispensei alguns e guardei outros na minha agenda do ano passado (também não sabia usar agenda). Anotei os importantes e dispensei também os clássicos guardanapos com telefone. Encontrei também a lista de pessoas que convidei para a minha formatura. TDAH é foda. Fui relendo essa lista e vendo quanto lixo passou pela minha vida. Quantas pessoas convidei só para calar-lhes a boca... Transtorno opositor? Talvez. Eu era muito movida a desafios. Meu mal era querer provar que era boa. Agora estou igual ao Renato Russo: "...quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém." 

A flauta? Não achei. Mas consegui terminar a faxina.

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Libertadores não é só um torneio. Libertadores são certos diagnósticos

Eu falei que não iria decidir nada da minha vida enquanto não fosse ao médico e acabasse definitivamente com o problema. Pois bem, fui lá e o Dr. Márcio me prescreveu ritalina. Já no primeiro dia eu senti o efeito, observem a diferença:

Sequência sem ritalina

- Cliente chamou e pedi para aguardar;
- Estava sentada no computador fazendo relatório;
- Interrompo o relatório no meio e me levanto para atender ao cliente;
- Encontro uma pessoa no meio do caminho que me pede uma informação que estava num arquivo;
- Pego a informação e anoto para a pessoa;
- Volto para o computador e continuo o relatório;
- Esqueço que o cliente está lá fora;
- A recepcionista me chama de novo.

Sequência com ritalina

- Cliente chamou e pedi para aguardar;
- Estava sentada no computador fazendo relatório;
- Termino o relatório;
- Me levanto para atender ao cliente;
- Encontro uma pessoa no meio do caminho que me pede uma informação que estava num arquivo;
- Pego a informação e anoto para a pessoa;
- Vou atender ao cliente lá fora.

Isso foi meu primeiro dia usando ritalina! Eu mal conseguia acreditar que eu dei sequência em tudo o que comecei. Despachei todos os relatórios que tinham para ser despachados, consegui pôr ordem nas coisas e agora vocês vão até rir... fiquei trabalhando uma hora a mais! Mas essa hora besta foi necessária porque eu estava preparando um material para representar o Estado de Minas Gerais numa feira, nada de euforia ou "workaholicices". 

Ainda não completei uma semana de uso da ritalina e já me sinto uma pessoa normal. Era meu sonho ser normal. Vou dar outro exemplo, o terceiro dia com a dona Rita:

Sequência sem ritalina

- Chefe recebeu doze pedidos de orçamento;
- Só tem eu para fazer;
- Ela senta-se ao meu lado e começa a ditar e verificar tudo o que estou escrevendo;
- Eu começo a ficar nervosa;
- Mais de dez minutos na frente do computador sem me levantar ou esticar é pedir para morrer;
- Vinte minutos eu já estou chorando;
- Não consigo terminar nem quatro dos doze orçamentos e ainda brigo com ela.

Sequência com ritalina

- Chefe recebeu doze pedidos de orçamento;
- Só tem eu para fazer;
- Ela senta-se ao meu lado e começa a ditar e verificar tudo o que estou escrevendo;
- Monto os orçamentos na ordem e envio um de cada vez;
- Três horas se passaram e eu nem vi;
- Terminei todos os orçamentos e ainda fechamos alguns negócios;
- Ganhei parabéns pelo meu desempenho! \o/

Isso sem contar a minha vida pessoal. Eu consigo escutar tudo o que o namorado diz sem viajar na maionese, sem me distrair e depois ficar perguntando "o que você disse mesmo?". Hoje o que faço com ele é uma espécie de debriefing: pergunto de novo para me certificar de que entendi corretamente tudo o que ele está me contando. Perdi o medo de perguntar as coisas. Perdi o medo de amar. Estou almoçando devagar, mastigando, e não engolindo a comida para sobrar "mais tempo para fazer bagunça". Estou falando mais devagar. E a Rita não me dá sono, não me deixa tapada e também não me deixa acelerada. Tudo o que ela faz é me concentrar.

Olha, no twitter comentei outro dia que libertadores não é só um torneio, mas sim certos diagnósticos. E é verdade. Eu precisava me libertar dessa tortura que é ser inteligente e não conseguir aproveitar tamanho potencial. Me descobri uma grande negociante! E quer saber? Estou em idade de construir a carreira, e o déficit de atenção não vai mais me sacanear, escrevam.

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Nossa bobagem de cada dia:

A minha bobagem é sem ritalina mesmo, porque sóbria é mais gostoso de se fazer as coisas. Por isso resolvi começar o meu dia com uma oração.

“Pai nosso que está nos céu, meu pai não é piloto, ele é mecânico. Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino. Complicado isso, fica parecendo aquelas conquistas medievais, um rei invadindo o reino do outro, castelo, dragão, princesa... Onde eu estava mesmo? Ah, sim, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. É, piloto quando está em terra, fala de avião, quando está em vôo fala de mulher. Bobagem danada, gente. Eu queria a uma hora dessa estar em comando para ver na prática mesmo o nível de cruzeiro. Por isso que atleticano nunca é piloto, para não ter que se manter em nível de Cruzeiro. A propósito, o jogo do América foi ótimo, pena que o juiz tenha roubado tanto. Tadinho do Mequinha, tão injustiçado! Nossa, viajei. O pão nosso de cada dia nos dai hoje... Putz! Lembrei que tenho que pagar o seu Manoel da padaria! Ah, não faz mal, amanhã eu vou lá e aproveito para fazer a unha com a dona Judite. Só que os esmaltes dela estão ruins, vou sugerir comprar uns novos, tem umas cores bonitas que saíram estes dias, última moda. Ah... ahmmm... é... ta. Amém.”

Texto por Glaucia Piazzi

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