Cadê a TV de LCD que estava aqui?*

*Texto escrito por Grace Piazzi

Não posso deixar de começar esta coluna sem falar da felicidade que estou sentindo. Por dois motivos: o primeiro, pelo espaço gentilmente cedido pela Glaucia (minha irmã) e pela Mirka (com a qual não tenho contato, mas que há um tempo, muito gentilmente me recebeu em sua casa). O segundo, por ter conseguido me libertar de mim mesma. Como assim? 

Sempre desconfiei de que não fosse muito normal. Apesar do meu corpo calmo, meu jeito pacato, minha mente sempre pareceu um turbilhão. Um turbilhão de ideias, de coisas a fazer e de constantes autorrecriminações no fim do dia, por conta das coisas que me havia me proposto a fazer e que não passavam de propostas. Em suma, o significado literal da expressão “brainstorming”

“Em meio a tantas coisas a fazer, por onde começar? Pela mais fácil, óbvio! Mas a mais fácil parece tão complicada. Vejamos a próxima... Ih, não consigo me concentrar. Peraí, deixa eu voltar na anterior, acho que vai dar. Não, não foi do jeito que eu pensei. Vou pra próxima de novo e depois eu volto.” E nesse vai e vem, o sono batia e já era hora de deitar. E deitava. “Mas cadê o sono que estava aqui? Estou tão cansada! Puxa, não consegui fazer nada hoje, mas amanhã, sem falta, eu vou fazer!” Pensando nessas coisas, mais uma hora se passava, até ser vencida pelo cansaço e apagar. Quando eu dava sorte, conseguia dormir uma noite inteira, mas quase sempre, acordava lá pelas tantas, sendo assombrada pelos mesmos pensamentos. E lá ia mais uma hora pra pegar no sono de novo... Essa era minha vida, há pouco menos de uma semana. 

Alguns me perguntam como eu nunca desconfiei de nada, enquanto estava no ensino fundamental e se eu não tirava notas baixas, por causa da dificuldade de concentração. A resposta é não. “Mas por quê? Quando você sentava pra estudar pras provas, não dava um certo desespero?” Novamente, a resposta é não. “Mas por quê?” Simplesmente, por que eu não sentava pra estudar. Não precisava. Quando sentava pra isso, lia (com uma certa angústia) rapidamente o que precisava e pronto! Já estava tudo estudado. Mãezinha, agradeça a Deus todos os dias pelo fato de sua filha aqui ter nascido com QI acima da média! Caso contrário, o estrago teria sido muito maior. Ou melhor, teria havido estragos. 

Comecei a sentir certa dificuldade quando passei para o ensino médio. Achei que fosse normal, já que o nível de exigência intelectual tinha aumentado e as disciplinas já não eram tão simples, além de a instituição ser o CEFET-MG (sim, eu sobrevivi a ele). Constantemente, eu me pegava sonhando acordada na sala de aula e, quando voltava à realidade, ainda dava tempo de aprender um pouquinho. As notas declinaram, mas não cheguei ao ponto de ficar em recuperação. Novamente, o QI acima da média estava lá pra me ajudar. Entretanto, tinha uma coisa que começava a me incomodar: a leitura. A professora de literatura passava as referências que a gente precisava ler para fazer as provas, ou estudos dirigidos em sala. Eu levava semanas pra ler um livro pequeno. Isso quando chegava a concluir a leitura. A cada duas linhas lidas, era uma viagem ao mundo da lua. Pra não ficar pra trás, os preguiçosos da turma sempre arrumavam um resuminho das obras. E assim eu me virava. Até tirei notas muito boas, mas a consciência pesava. 

Não satisfeita, inventei de fazer um curso técnico. Eu sempre soube que não atuaria na área, mas fui lá, saber qual é a desse negócio. Escolhi um curso que julgava tranqüilo: Química. É, eu tinha facilidade com a disciplina e imaginei que no curso não seria diferente. Engano total. Minhas notas declinaram ainda mais, não consegui acompanhar o ritmo da turma até que... “Mãe, tomei pau!” “Como assim, Grace? Você não faz mais nada na vida além de estudar! Faça-me o favor, né?” Repeti um módulo do curso. Aos trancos e barrancos, consegui conclui-lo. Mas o sentimento de frustração foi tão grande, que eu não quis saber de seguir carreira nessa área. 

Poucos meses antes de acabar o curso, fui chamada pra trabalhar num órgão do Estado de Minas Gerais, por meio de um concurso para o qual eu não havia estudado uma linha sequer. Como? Não sei. Dizem as más línguas que o tal concurso, para o meu cargo, rendeu 217 candidatos por vaga. Se era verdade, eu não sei. Já faz 8 anos que trabalho para o Estado e ninguém ainda me respondeu... O fato é que, quando o comentário chegou até mim, fiquei calada, mas pensei: “Ainda tenho salvação nessa vida!” Aí, decidi que era hora de fazer vestibular. Mas quem disse que seria fácil? Eu achei que seria. Outro engano. 

Três tentativas depois... Ah, finalmente! Passei na UFMG. Ufa, agora minha vida estaria totalmente resolvida. E não é que eu me enganei outra vez? Aí sim, o inferno se instaurou na minha vida. A cada aula, o quadro negro se transformava numa enorme TV de LCD, onde eu via toda minha vida, as coisas que eu tinha que fazer, as que eu não fiz, as que deveria ter feito... Ou seja, aquelas mesmas coisas que me assombravam na hora de dormir e mais algumas. Resultado: exame especial nos três primeiros períodos. Passei em várias disciplinas com nota mínima e sempre com aquela sensação de “sou burra e não consigo acompanhar nada!”. E novamente, aos trancos e barrancos, cheguei ao sexto / sétimo períodos (sim, sou irregular) de Terapia Ocupacional. Não sei como ainda, mas cheguei. 

Curiosamente, essa chegada me jogou contra mim mesma. Vou explicar. Cursei semestre passado, uma disciplina chamada “Terapia Ocupacional Aplicada ao Desenvolvimento B”, que se divide em dois módulos: no primeiro, estudamos crianças com TDAH e no segundo, crianças com paralisia cerebral. Acontece que no primeiro módulo, o enfoque dado pela professora foi nas crianças com TDAH predominantemente hiperativas. Ah, isso não era novidade pra mim. A Glaucia tem o tipo combinado de TDAH e, baseada no comportamento dela, eu soube responder tanta coisa (sim, porque eu achava que a doida era só ela, ahahaha...). Aí a coisa foi apertando. O semestre parecia não ter fim. Tanta coisa pra ler e, pra variar, eu nunca conseguia ler tudo. A leitura ia até a metade, isso quando lia alguma coisa. A cada aula, era uma angústia. E lá estava a TV de LCD no quadro negro mais uma vez! Resultado: mais um exame especial. Não passei e estou repetindo a disciplina. Fiquei extremamente decepcionada, mas mal sabia eu que essa repetência mudaria minha vida. 

Passada a frustração, já de férias da faculdade e com mais tempo pra me dedicar às pessoas queridas, a Glaucia e eu conversamos a respeito do problema que eu achava que era só dela e das coisas boas que ela havia conquistado só com o uso da ritalina. Obviamente, fiquei muito feliz por ela e isso me despertou um interesse pelo TDAH que eu não tinha tido ao cursar a tal disciplina. Afinal, quem é esse desconhecido que as pessoas tanto usam pra rotular criancinhas levadas? Após inúmeras leituras (forçadas, claro), algo me chamou a atenção: o subtipo de TDAH desatento. Achei tudo muito estranho, afinal, parecia que os textos relacionados a esse subtipo estavam falando de mim. Ainda assim, resisti um pouco e achei que era mais uma das minhas constantes viagens ao mundo da lua. 

E começou mais um semestre! Ah, desta vez vai ser tudo diferente! Vou ler tudo o que os professores mandarem e parar de fazer as coisas aos 47 minutos do segundo tempo. Comecei com o maior pique, que durou incríveis 12 dias! Dali em diante, lá estava eu fazendo tudo de novo. A angústia começou a tomar conta e, já não aguentando mais, liguei desesperada pra Glau: “Me dá o telefone desse psiquiatra seu, pelo amor de Deus!” Marquei minha consulta, fui lá e não deu outra: TDAH predominantemente desatento. Uma mistura de decepção e felicidade tomou conta de mim. Levei um susto, quando vi o médico escrevendo a receita: RITALINA. “Mas eu preciso disso, doutor?”. Ele sorriu e disse: “Quem vai me dizer isso é você!” “Tudo bem então, vamos ver como é isso. Se funcionou pra Glaucia, talvez funcione para mim também.” 

Gente, se milagre existe, ele se chama ritalina! No primeiro dia, eu já senti a diferença. Assisti a uma aula inteira sem viajar (a TV de LCD sumiu), consegui dar sequência a todos os documentos que estavam parados na minha mesa de trabalho, por falta de saber por onde começar, parei de levantar da cadeira a cada cinco minutos e andar sem rumo pelos corredores do meu local de trabalho, li quatro artigos científicos, um atrás do outro, sem nem piscar e um livro inteiro numa tarde de domingo. Além disso, estou dormindo uma noite inteira, sem a menor dificuldade. Aquela sensação de frustração em saber que o dia passou e eu não fiz nada sumiu. 

Bom, esse foi só um resumo da minha vida acadêmica. A minha ideia era falar também do meu comportamento no dia a dia, mas este texto teria o triplo do tamanho e achei melhor deixar para uma próxima postagem. Só o que eu sei é que em pouco menos de uma semana me transformei em outra pessoa e essa outra pessoa é muito melhor! Não preciso mais ficar sob a máscara do ‘tipo sou foda’ pra esconder meu problema. Devo admitir, a sensação de ser normal é muito boa. 

Retorno ao psiquiatra daqui a um mês! 

* * * * *

Comentário da Glaucia Piazzi: 

Bem-vinda ao time dos abençoados devotos de Santa Rita do Metilfenidato! Você vai obter resultados incríveis com o uso correto da ritalina. Boa sorte!

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3 comentários:

Alexandre Schubert disse...

Olá Grace!
Força, amiga. Como tudo em nossas vidas vai chegar um momento em que você vai querer abandonar o tratamento e achar que não precisa mais dele. Releia seus textos, rebobine sua vida, respire fundo e tome a Ritinha. Sem ela nossa vida vira um bondinho de Santa Tereza: pode até não acontecer a tragédia hoje, mas uma hora ela chega.
Boa sorte!

Ginny Yoon disse...

Adorei o post! Vocês duas escrevem muito bem. Descobri ontem que tenho TDAH, com hiperatividade mesmo, mas sem impulsividade. Estou amando o blog, é bom saber que não estou sozinha (:

Avoada disse...

Olha, confesso que não li o post todo! Rsrsrs
Mas tava muito bem escrito, depois quero voltar aqui e terminar! :D

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Nossa bobagem de cada dia:

A minha bobagem é sem ritalina mesmo, porque sóbria é mais gostoso de se fazer as coisas. Por isso resolvi começar o meu dia com uma oração.

“Pai nosso que está nos céu, meu pai não é piloto, ele é mecânico. Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino. Complicado isso, fica parecendo aquelas conquistas medievais, um rei invadindo o reino do outro, castelo, dragão, princesa... Onde eu estava mesmo? Ah, sim, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. É, piloto quando está em terra, fala de avião, quando está em vôo fala de mulher. Bobagem danada, gente. Eu queria a uma hora dessa estar em comando para ver na prática mesmo o nível de cruzeiro. Por isso que atleticano nunca é piloto, para não ter que se manter em nível de Cruzeiro. A propósito, o jogo do América foi ótimo, pena que o juiz tenha roubado tanto. Tadinho do Mequinha, tão injustiçado! Nossa, viajei. O pão nosso de cada dia nos dai hoje... Putz! Lembrei que tenho que pagar o seu Manoel da padaria! Ah, não faz mal, amanhã eu vou lá e aproveito para fazer a unha com a dona Judite. Só que os esmaltes dela estão ruins, vou sugerir comprar uns novos, tem umas cores bonitas que saíram estes dias, última moda. Ah... ahmmm... é... ta. Amém.”

Texto por Glaucia Piazzi

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