A crise - por Gaaki

Estava ficando com cada dia mais raiva das minhas “bateções de cabeça”. Sempre acreditei que, quando fazemos a coisa certa, as portas se abrem automaticamente. Então... fiz Fonoaudiologia, dei muito murro em ponta de faca, insisti durante quatro anos e não evoluí. Agora estou com um elefante branco lá na minha casa, vulgo audiômetro, para vender e possivelmente pagar as horas de voo. Nesses quatro anos só acumulei dívidas por causa desse bendito audiômetro e vou ficar pagando-o até 2014. Não, gente, chega. Vou vendê-lo, quitar essa dívida e recomeçar outra vida. Cansei de ser pobre.

Há algumas semanas um amigo estrangeiro estava passando pela mesma “crise”: saco cheio dessa vida de pobre, de bater cabeça e não evoluir. Ele estava num estresse tão grande, mas tão grande que não me deu nem bom dia para não ter que me responder “o que ele tem de bom?”. Pois é, mal sabia ele que eu estava passando pelo mesmo problema do lado de cá da linha do Equador. Ele sabia exatamente o que eu estava sentindo.

Fonoaudiologia só vale a pena quando você tem marido ou irmão otorrinolaringologista e, como não é o meu caso, sou obrigada a olhar para o elefante branco todas as noites. Vou vender aquilo e esquecer de vez isso. Não, gente, não estou falando mal da Fonoaudiologia, mas sim da luta que é você abdicar cinco anos da sua vida de trabalhar para poder se formar numa das melhores universidades da América Latina e não ter retorno algum. Adoro clinicar, gosto de gente, amo idosos, que foram essencialmente meu público alvo nesses quatro anos. Mas ninguém merece ser fonoaudiólogo no Brasil. As pessoas costumam confundir profissões de reabilitação com caridade e não gostam de pagar. Brasileiro só vai ao médico quando está doendo. Falar errado não dói. E daí? Daí que larguei a Fonoaudiologia sem dó nem piedade. Não me arrependo.

Aí andei pensando: que droga. Escolhi um outro sonho caro. Fui fazer Pilotagem de Aeronaves. Lindo, interessante, curioso, até porque uma mulher nessa área é algo raro. É bastante divertido até. Não senti até hoje qualquer forma de preconceito, muito pelo contrário, sempre fui muito respeitada pelos meus colegas e professores. Fiz grandes amigos na aviação e adoro esse metier. Muitos dos profissionais que admiro hoje em dia são aviadores. Meu ídolo é Santos Dumont.

Ok, lindo sonho. Uma mulher aviadora, que máximo, chamo a atenção de um bocado de gente por onde passo. Não é comum. Mas de que adianta você não ser comum e não ter um pai Eike Batista para bancar seus sonhos? Não que eu não me orgulhe do meu, afinal, foi com ele que aprendi a amar as máquinas. E exatamente para honrar isso eu avisei em outro post que ia fazer mais uma doideira. E foi assim que [re]escolhi Engenharia Mecânica, na mesma universidade em que fiz Pilotagem. Era um curso que já tinha vontade de fazer há muito tempo, e achei que agora era a hora certa.

Cara, eu não poderia estar mais feliz. Estou concentrada no meu trabalho, estou aproveitando meu momento de hiperfoco como nunca. Quando chego à faculdade, além de morrer de rir porque estar entre homens me faz bem – sim, odeio frescura feminina, sou uma mulher extremamente prática e direta – eu posso dar vazão a absolutamente todas as minhas maluquices. Tudo o que se pensa é válido, tudo pode ser posto em prática, sonhos e invenções de criança podem ser coisas úteis no dia-a-dia das pessoas. Lá eu encontrei o respaldo que nunca encontrei em nenhum outro lugar a que tenha ido. Muitos amigos engenheiros já haviam me falado que engenhar é criar. E tanto é verdade e estou levando isso tão a sério que estou em paz, não sinto mais aquela angústia em saber que não estou no lugar certo, aquela sensação de saco cheio sumiu. As portas literalmente se abriram.

Nesse ínterim entre aeroclube e retomar os estudos na faculdade passei por um relacionamento feliz, mas que teve um fim estranho e agora acabou mesmo. Sofri, lógico, porque criei uma expectativa muito grande. Agora aprendi que a expectativa é a mãe da decepção – assim como a preguiça é a mãe da engenharia, porque se não fosse um preguiçoso ter preguiça de andar a roda jamais teria sido inventada, eheheh. =) Comentei isso porque agora eu tenho um novo relacionamento, à distância, mas que me faz feliz e que não me deixa maluca como antes eu estava. Chega de tentar esconder com sexo uma frustração pessoal. Tanto que mesmo ele estando longe de mim sinto como se estivesse ao meu lado, porque nos falamos todos os dias, e incrivelmente não estou sentindo falta de sexo.

Sabe o que é isso? Estou canalizando minhas energias para o lugar certo. Estou em paz.

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Nossa bobagem de cada dia:

A minha bobagem é sem ritalina mesmo, porque sóbria é mais gostoso de se fazer as coisas. Por isso resolvi começar o meu dia com uma oração.

“Pai nosso que está nos céu, meu pai não é piloto, ele é mecânico. Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino. Complicado isso, fica parecendo aquelas conquistas medievais, um rei invadindo o reino do outro, castelo, dragão, princesa... Onde eu estava mesmo? Ah, sim, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. É, piloto quando está em terra, fala de avião, quando está em vôo fala de mulher. Bobagem danada, gente. Eu queria a uma hora dessa estar em comando para ver na prática mesmo o nível de cruzeiro. Por isso que atleticano nunca é piloto, para não ter que se manter em nível de Cruzeiro. A propósito, o jogo do América foi ótimo, pena que o juiz tenha roubado tanto. Tadinho do Mequinha, tão injustiçado! Nossa, viajei. O pão nosso de cada dia nos dai hoje... Putz! Lembrei que tenho que pagar o seu Manoel da padaria! Ah, não faz mal, amanhã eu vou lá e aproveito para fazer a unha com a dona Judite. Só que os esmaltes dela estão ruins, vou sugerir comprar uns novos, tem umas cores bonitas que saíram estes dias, última moda. Ah... ahmmm... é... ta. Amém.”

Texto por Glaucia Piazzi

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